Livro: O Que é Fascismo? E Outros Ensaios
Autor: George Orwell 
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 158
ISBN: 978-85-5651-030-3
Sinopse: Entre as décadas de 1930 e 1940, George Orwell colaborou em diversos veículos da imprensa britânica como observador implacável da sociedade e da cultura. Em ensaios, resenhas e colunas reunidos em O que é fascismo?, o criador do mundo distópico de 1984 explora uma galeria de temas cujo fio condutor é a política, sua maior obsessão intelectual e literária. A visão desencantada de Orwell ilumina os fatos e as obras capitais da época para torná-los compreensíveis para o homem comum. Sempre movido pela inteligência da dúvida, ms também apaixonado por suas fortes convicções socialistas e democráticas, o autor critica filmes, livros e outros escritores com a mesma lucidez devotada às leituras da política doméstica e europeia, centradas na ascensão no nazifascismo e na tragédia da Segunda Guerra Mundial. Com organização e prefácio de José Augusto, esta seleção de grandes momentos da produção jornalística de Orwell se compõe exclusivamente de textos inéditos em livro no Brasil.

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair. Nascido em Motihari, norte da Índia britânica, em 1903, filho de um funcionário da administração britânica do comércio de ópio, Orwell estudou em colégios tradicionais da Inglaterra. Na décade de 1920, foi agente da polícia colonial da Birmânia. Nas décadas seguintes, deslanchou sua carreira como escritor publicando diversos romances, ensaios e textos jornalísticos, sendo oS mais conhecidos 1984 e A Revolução dos Bichos. É considerado um dos escritores mais importantes do século XX. Morreu em 1950, aos 46 anos, em Londres, vítima da tuberculose.

   O que é fascismo? e outros ensaios é um compilado de textos escritos por George Orwell para diversos jornais entre os anos 1938 e 1948. Neles se pode ter uma ampla visão de quem foi Orwell e qual seu posicionamento a respeito dos acontecimentos da época. Em 1939 eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Em 1945 ela chegou ao fim. Grande parte dos textos contidos no livro foram escritos em meio a Guerra – mais como uma forma de resistência, pois seus escritos eram justamente o tipo de conteúdo que o governo buscava reprimir.
   A visão antiguerra de alguém que vivia na Inglaterra e tinha uma ampla ótica do lado dos Aliados (grupo formado pelo Reino Unido, União Soviética e Estados Unidos) é altamente explorada através de Orwell. Suas críticas são direcionadas não apenas ao fascismo e nazismo que tomaram a Itália e a Alemanha, respectivamente, mas também ao próprio governo britânico, com suas alianças cheias de conveniência política. Orwell também foi um grande defensor dos direitos humanos, posicionando-se sempre contra a escravidão, a colonização e o preconceito.
   Não apenas de artigos de opinião vive O que é fascismo? e outros ensaios, pois Orwell era tanto um escritor assíduo como um leitor voraz. O livro é permeado de resenhas que o autor busca detalhar com toda a sinceridade – e não só de livros, dentre elas há a análise do filme O grande ditador (1940), com Charles Chaplin. Em todas, Orwell buscou acrescentar sua visão de mundo à história, deixando clara sua posição ideológica, mas que nunca sobressaía o seu senso crítico.

   Este foi meu primeiro contato com George Orwell. Já havia lido diversos estudos sobre o autor e suas obras, inclusive tendo que produzir trabalhos acadêmicos sobre tais estudos, mas – e esse é um erro medonho, sei disso – nunca cheguei a ler nada do escritor, embora a curiosidade sobre esse "tal de Orwell" sempre se fez presente. Por isso agarrei a oportunidade de ler alguns de seus ensaios e penso que não poderia ter começado melhor. Gostei muito dessa primeira impressão, já que pude conhecer logo de cara a versatilidade de Orwell em falar sobre os mais diversos assuntos mantendo uma visão ampla e crítica sobre tudo. Foi imensamente encantador e, dessa forma, me sinto mais preparada para encarar qualquer outras de suas obras.
   Há algo que ouço de muitas pessoas e sempre sou obrigada a discordar: que escritores antigos tem uma linguagem muito complicada, difícil, e isso faz com que seus livros sejam chatos. Há casos e casos, e se realmente há correlação entre a época em que o livro foi escrito e sua narrativa pouco fluida, então a escrita de Orwell é uma exceção. Como jornalista, ele consegue deixar seu texto claro e objetivo tendo como missão fazer com que seu trabalho atinja as mais diversas classes – o que nem sempre era possível devido ao embate da sociedade conservadora frente a suas críticas e a ainda pouca alfabetização que estava alastrada no proletariado.


"Talvez algum grau de sofrimento seja inerradicável da vida humana, talvez a escolha diante do homem seja sempre uma escolha entre males [...] Todas as revoluções são fracassos, mas não são todas o mesmo fracasso" (p. 116).

    Além da leitura fácil, o tom satírico e ao mesmo tempo frio ao tratar das mazelas humanas no mundo, dá um ar de peso a obra como um todo. Orwell tinha coerências nos argumentos e mostrava um arcabouço de leituras e estudo bastante vasto onde ele apoiava seus pensamentos para pô-los no papel. Quando se punha a destrinchar um livro, por exemplo, produzia resenhas muito fundamentadas em tudo o que já lera antes e colocava sua opinião sem pudores. Costumava criticar os próprios críticos – mais especificamente aqueles que se vendiam pelo escritor ou editoras que disponibilizavam o livro para resenha. Isso me fez pensar que se Orwell vivesse nos dias de hoje, com certeza teria um blog de livros como este, e com certeza faria muito sucesso (inclusive aprendi muito mais sobre resenhas no livro)! E claro que nada do que ele critica é em vão: procura beber da fonte para depois criticar a água dela.
    A clareza na escrita não é a única característica plenamente jornalística que Orwell tinha. A forma como fazia suas críticas é o que reconheço como um verdadeiro jornalismo – algo que mal conhecemos nos dias de hoje, pois poucos conseguem um alto renome e um bom espaço para poder falar o que pensam e ainda assim continuar "por cima da carne seca". Apesar de fazer muitas inimizades graças as duras verdades que escrevia, Orwell não perdeu seu status, pelo contrário, é reconhecido até os dias de hoje como um dos grandes escritores do século XX. Sua visão era muito a frente de seu tempo, pois, apesar de ter feito previsões e errado em muitas delas, ele conseguia enxergar o que estava errado onde praticamente ninguém mais conseguia – e ele bem sabia as consequências de se levar a frente regimes como a democracia capitalista ou as ditaduras comunistas.
    Criticar a tudo e a todos parecia o grande instinto de Orwell. Ele não fechava os olhos para nada e tinha muita honestidade em suas palavras – além de muito cuidado, pois como qualquer escritor, ele tinha suas responsabilidades ao escrever algo que seria veiculado entre a população. Sua visão sobre a guerra chega a ser mais ampla que os livros de história: normalmente se vê Hitler como a figura central e o grande vilão de tudo, abarcando assim o nazismo (e logo em seguida vem o fascismo de Mussolini), mas não era tudo preto no branco. Orwell, como cidadão de um país colonizado cruelmente pelo Reino Unido, e vivendo em solo inglês, poderia descrever melhor que ninguém os horrores que os "mocinhos" (os Aliados) praticavam. E ele o fez – melhor que ninguém eu não sei, mas muito bem.

"Vivemos uma época na qual a democracia está em retirada em quase todo lugar, em que super-homens estão no controle de três quartos do mundo, em que a liberdade é descartada na explicação de insidiosos professores, em que o espancamento de judeus é defendido por pacifistas" (p. 39).

    Outro ponto que me chamou atenção é que, mesmo ele tendo sua ideologia social-democrata, não deixava de fazer observações críticas sobre a mesma. É engraçado como seus textos, mesmo sendo antigos, conseguem se encaixar perfeitamente com os tempos atuais. Quem hoje tem o respeito de parar para ouvir o colega que pensa diferente? Quem hoje tem a coragem de bater de frente com suas próprias ideias e questioná-las (mesmo tendo aquela certeza quase absoluta de que estão certas)? Muitas pessoas não conseguem alcançar o nível de evolução de Orwell, que dizia que devemos, sim, ouvir nossos rivais ideológicos (acima de tudo, respeitá-los) e devemos repensar nossos ideais – que estão em constante mudança. E o melhor de tudo: ele abolia em suas obras a tão problemática generalização.

"Admitir que um oponente possa estar sendo honesto e inteligente é tido como algo intolerável. É mais iminentemente satisfatório gritar que ele é um tolo ou um patife, ou ambos, do que descobrir como de fato ele é. Foi nesse estado mental, entre outras coisas, que fez com que as previsões políticas em nossa época fossem notavelmente mal sucedidas" (p. 138).

   A capa atrativa pela sobreposição das figuras às cores marcantes, segue o mesmo padrão das outras do mesmo autor também publicadas pela Companhia das Letras. Me arrisco dizer que já havia passado da hora de trazer os ensaios de Orwell para o Brasil – um ponto a mais para os títulos clássicos que temos disponíveis! O organizador do livro e dessa ideia (e também escritor do prefácio, Sérgio Augusto) trabalhou na disposição dos textos de forma coerente, fazendo uma linha do tempo desde 1938 a 1948 e selecionando os textos mais relevantes das colunas que Orwell escrevia nos jornais. Fininho e com um tamanho de 13,70x21, é daqueles que cabem em todo espaço e servem como um ótimo livro de cabeceira. A tradução e revisão são impecáveis e o livro se tornou muito mais rico com as notas de rodapé (tanto de Orwell, quanto de Sérgio e Paulo Geiger, o tradutor).
    Após ler O que é fascismo? e outros ensaios parece que mais uma lacuna se preencheu em minha mente leitora. George Orwell escancara as mazelas políticas e sociais de forma simples e leve, voltada para os mais diversos tipos de leitor – não precisa ser um entusiasta de política internacional para entender que tudo o que o autor fala é simplesmente que não se pode calar, deve-se ter voz para seguir rumo a um mundo mais justo (talvez não perfeito, mas melhor). Com muita das coisas que ele relata em seus textos, há muito o que se retirar para encaixar nos contextos atuais – é aquela escrita que nunca envelhece, como se a sociedade estivesse passando pelos mesmos ciclos eternamente. Não preciso nem falar que suas resenhas não são apenas encantadoras como servem de recomendação de leitura — assim como esta, aliás —; porém, acima de tudo, o que Orwell enfatiza neste compilado de textos é que o mundo precisa de pessoas que pensem mais, questionem o sistema em que vivem, reflitam sobre suas próprias ações e arregacem as mangas para mudar.

Primeiro parágrafo: "Por algum tempo, a reputação póstuma de George Orwell dependeu de duas obras ficcionais – A revolução dos bichos e 1984 – e de apenas três ensaios, amiúde recolhidos em antologias do gênero e traduzidos pela Companhia das Letras neste século: "Dentro da baleia" e "O abate de um elefante" (Dentro da baleia e outros ensaios, 2005), e "A política e a língua inglesa" (Como morrem os pobres e outros ensaios, 2011). Seus dois romances cedo se tornaram referências fundamentais da literatura especulativa de inspiração política: o alegórico A revolução dos bichos influenciou até Chico Buarque (Fazenda modelo), e expressões como Big Brother [Grande Irmão] e Newspeak [Novilíngua], lançadas em 1984, há muito caíram na boca do povo e na cloaca televisiva. À medida que a Guerra Fria avançava e os embates ideológicos se polarizavam ainda mais, o interesse pelos seus demais ensaios multiplicou-se em ritmo que não seria exagero qualificar de avassalador. E não apenas nos países de língua inglesa. Nem somente junto aos leitores liberais e mais à esquerda".
Melhores quotes: "O homem comum é mais sábio que os intelectuais, assim como os animais são mais sábios que os homens".
"Pessoas só podem ser felizes quando não pressupõem que o objetivo da vida é a felicidade".




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