Livro: A Grande Saída: Saúde, Riqueza e as Origens da Desigualdade
Título Original: The Great Escape
Autor(a): Angus Deaton
Editora: Intrínseca
Páginas: 335
ISBN: 978-85-510-0181-3
Sinopse: Angus Deaton afirma que vivemos melhor hoje do que em qualquer outro período da história. As pessoas são mais saudáveis, mais ricas e a expectativa de vida continua a aumentar. Paradoxalmente, o fato de tantos indivíduos terem conseguido escapar da pobreza também gerou desigualdades; e a disparidade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento se estreitou, mas não desapareceu. Em A grande saída, um dos maiores especialistas em estudos sobre pobreza recua 250 anos para traçar a impressionante história de como diversas regiões do mundo vivenciaram um progresso significativo e, assim, abriram abismos que levaram ao cenário extremamente desigual de hoje. O estudo aprofunda-se nos padrões históricos e atuais por trás das nações ricas e com boas condições de saúde, e aborda o que é preciso fazer para ajudar os países que ficaram para trás.

Angus Deaton nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 1945. Já lecionou na Universidade de Cambridge e na Universidade de Bristol. Em 2009, foi presidente da Associação Americana de Economia, e, em 2015, eleito membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. No mesmo ano, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre pobreza, desigualdade, saúde, bem-estar e desenvolvimento econômico. Em 2016, foi nomeado cavaleiro da realeza britânica por sua dedicação à economia e às relações internacionais. Atualmente, é professor desses campos de estudo em Princeton.

   O mundo cresceu e se desenvolveu muito ao longo dos últimos anos. A globalização trouxe vários benefícios a nossa sociedade e nos aproximou mais uns dos outros. Vários povos saíram da marca da pobreza extrema. O número de pessoas que passam fome diminuiu. Porém, malefícios ainda podem ser notados. A desigualdade é evidente: seja em países considerados desenvolvidos, em desenvolvimento ou mesmo os que ainda são classificados como pobres. Após muitas crises, o crescimento econômico em países como China, Índia, Brasil, África do Sul e até mesmo Estados Unidos, pode parecer realmente incrível. Porém, Angus Deaton se dispõe a mostrar que nem tudo está tão bem, afinal, nesses países, o dinheiro se concentra nas mãos de poucos – coincidentemente, no último dia 25 saiu uma pesquisa sobre a desigualdade de renda no Brasil (veja aqui a matéria sobre o estudo) que só prova o quanto o abismo entre ricos e pobres vem se intensificando.
   Sem dúvida as coisas estão melhores hoje do que há alguns anos. A expectativa de vida aumentou 50% desde 1900 e ainda está aumentando. Apesar da explosão populacional resultante, a qualidade média também aumentou. A proporção de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia (em termos ajustados pela inflação) caiu de 42% para 14% em 1981. Mesmo que a desigualdade tenha aumentado em muitos países, a desigualdade global provavelmente caiu, graças em grande parte a ascensão da Ásia. Mas A grande saída ressalta que não podemos ignorar que boa parte de grupos sociais não veem o progresso de perto.
   Deaton faz uma rememoração e volta para os tempos antigos, quando nossos ancestrais primitivos andavam sobre a Terra. De acordo com os estudos apresentados, muitos de seus costumes levaram o ser humano a ser o que é hoje – retrata a passagem do homem caçador para o homem agricultor. Ele também desmembra os mais diversos tipos de dados: desde censos do século XVII até as pesquisas sobre bem-estar atuais. E hoje, com a revolução digital, o acesso a conhecimento ajuda diversas sociedades a se desenvolverem. Além disso muitos progressos científicos se tornaram viáveis em vários países, em especial as descobertas para cura de doenças. Porém, o aumento da obesidade e o consumo puramente materialista são consequências não tão boas do desenvolvimento em países ricos.

  Leituras que tratam sobre os bens e males do mundo moderno sempre são do meu interesse, especialmente quando envolve economia e contém dados empíricos que mostram o que há por trás das teorias. A grande saída foi meu primeiro contato com Deaton, que reconhecia como sendo um grande economista (principalmente após o Nobel), porém não sabia de seus estudos na área da saúde e me surpreendi por ler algo mais completo do que eu esperava. As outras experiências que tive com a temática foram através de obras com dogmas já formados, destinados à pessoas que seguiam a mesma linha de pensamento – ou estavam dispostas a seguir. Foi ótimo encontrar uma visão diferente com A grande saída.
    A escrita de Deaton é simples — ele evita termos muito difíceis da área de economia, e quando tem que usá-los, busca explicar de forma fácil. Apesar de se tratar de um assunto sério e de grande importância para ser estudado e discutido, o autor o faz de maneira leve, sem entrar em polêmicas (como muitos escritores do gênero fazem). Seu posicionamento a respeito de alguns assuntos são claramente visíveis, ou seja, a distinção entre dados fixos e opiniões é bem definida.

"Este último é meu preferido: se vamos rotular pessoas como pobres e tratá-las diferentemente por causa disso, concedendo-lhes, por exemplo, subsídios para comprar comida, então a opinião do povo em geral – cujos impostos estão sendo utilizados para viabilizar isso – deveria ser levada em conta na hora de definir o valor da linha [de pobreza]" (p. 170)

    O livro trabalha muito bem com a linguagem visual, um de seus pontos altos. São vários gráficos que levam diversas explicações em suas legendas e no próprio texto, já que Deaton detalha cada um. A obra é dividida em três partes: Vida e morte, Dinheiro e Ajuda. Cada uma delas vislumbra momentos vividos por diversas nações ao longo dos séculos e prevê possíveis soluções. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a sensibilidade com a qual Deaton tratou cada um dos temas e os interligou, tendo sempre em mente (e lembrando os leitores a todo momento) que é preciso pôr cada situação dentro de contextos adequados. A ética profissional está sempre presente e o autor cumpre sua responsabilidade como alguém que terá seu livro lido por profissionais de economia e entusiastas. Ele se envolve diretamente com o livro a partir de sua apresentação, quando fala de seu pai e dos obstáculos enfrentados pela família no passado – o que serve como exemplo para os desdobramentos abordados na obra.
    Uma das coisas que me incomodou foi as constantes comparações que Deaton fez do século XXI com o século XIX e outros mais antigos. Essa comparação suaviza os problemas atuais, porque obviamente a sociedade global evoluiu e se tornou mais capacitada para criar condições melhores de vida. Dessa forma, os números de pessoas que vivem na pobreza atualmente também são suavizados. Porém, na última parte do livro, pode-se observar as tentativas de Deaton para mostrar que a fórmula que vem sendo aplicada não está funcionando de forma correta. Isso leva o autor a realizar muitas críticas contundentes – e justas – à ajuda internacional como um todo. Por ser um assunto linear e que se interliga com os mesmos fatores, Deaton se repete em muitos momentos e deixou a leitura cansativa.
    A capa é muito elegante e tem um design interessante com a pintura à óleo datada de 1451 de Rogier van der Weyden, The last Judgement (O último julgamento), exposto no Museu l'Hôtel-Dieu, em Beaune, França. O melhor de tudo é a relação direta que a pintura tem com o assunto do livro: o quadro foi feito para ocasiões especiais e, na maior parte do tempo, ficou numa capela ao lado de um hospital. Naquela época, as pessoas iam aos hospitais com a morte batendo na porta, quando não havia mais o que pudesse ser feito. Dessa forma, elas tinham o vislumbre da pintura como se representasse seu último julgamento. Deaton nos aponta, durante todo o livro, que o ser humano tentou diversas diversas portas e janelas – muitas saídas –, porém elas não surtiram efeito. Agora o que nos resta é tentar mais uma vez, e essa talvez seja nossa versão do último julgamento.

"Pesquisas do Banco Mundial revelam que em muitos países, o absentismo é um problema sério e atinge tanto serviços de saúde quanto de educação. Em alguns casos, os servidores têm baixos salários. É como se houvesse um contrato implícito entre os trabalhadores e seus empregadores: o governo finge que paga e eles fingem que aparecem para trabalhar" (p. 117).

    Ao final, o livro contém as devidas referências bibliográficas e um índice remissivo (dois elementos muito necessários em uma obra como essa). A revisão e tradução para o português foi feita de maneira impecável. Porém, a revisão da versão original pecou em alguns aspectos – o que pode configurar como característica própria do autor, já que muitos não são favoráveis a alterações bruscas em suas obras durante a revisão da editora, especialmente quando se trata de livros de não-ficção –, pois como já mencionei, ela contém muitas repetições e adiciona assuntos técnicos que talvez não interessem diretamente leitores mais leigos. 
    A grande saída, como o título busca apontar, refere-se ao início do Iluminismo, quando cientistas de diversas áreas começaram a pensar em fórmulas de fazer a sociedade progredir e obter cada vez mais conhecimento. É uma obra que não se dedica apenas a apresentar os fatos, como muitas fazem, mas também apontar soluções, uma possível "grande saída" – grande o suficiente para que todos escapem, não apenas alguns – e talvez a única. Foi mais uma leitura prazerosa e importante em que me identifiquei com muitos pensamentos do autor (apesar de discordar em alguns aspectos), além de sua sensibilidade ao detalhar cada etapa de suas pesquisas ter me tocado bastante. É um livro que fala de problemas, mas também dá esperanças – sem nunca deixar de apontar que a grande saída, na verdade, está nas mãos de cada um de nós.

Primeiro parágrafo: "O filme fugindo do inferno conta a história de prisioneiros que escapam de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Este livro conta a história de como a humanidade escapou da pobreza e da morte precoce e de como as pessoas conseguiram melhorar suas vidas e abriram caminho para que outras as seguissem".
Melhores quotes: "Um mundo melhor gera um mundo de diferenças; novas fugas geram desigualdades".
"Alguns poucos estão se dando muito bem; muitos estão em dificuldade. No mundo todo, vemos os mesmos padrões de progresso — alguns encontram a saída enquanto outros ficam para trás, afundados em extrema pobreza, privação, doença e morte".


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