Livro: Piano Vermelho
Título Original: Black Mad Wheel
Autor(a): Josh Malerman
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 978-85-510-0206-3
Sinopse: Ex-ícones da cena musical de Detroit, os Danes estão mergulhados no ostracismo. Sem emplacar nenhum novo hit, eles trabalham trancados em estúdio produzindo outras bandas, enchendo a cara e se dedicando com reverência à criação - ou, no caso, à ausência dela. Uma rotina interrompida pela visita de um funcionário misterioso do governo dos Estados Unidos, com um convite mais misterioso ainda: uma viagem a um deserto na África para investigar a origem de um som desconhecido que carrega em suas ondas um enorme poder de destruição. Liderados pelo pianista Philip Tonka, os Danes se juntam a um pelotão insólito em uma jornada pelas entranhas mortais do deserto. A viagem, assustadora e cheia de enigmas, leva Tonka para o centro de uma intrincada conspiração. Seis meses depois, em um hospital, a enfermeira Ellen cuida de um paciente que se recupera de um acidente quase fatal. Sobreviver depois de tantas lesões parecia impossível, mas o homem resistiu. As circunstâncias do ocorrido ainda não foram esclarecidas e organismo dele está se curando em uma velocidade inexplicável. O paciente é Philip Tonka, e os meses que o separam do deserto e tudo o que lá aconteceu de nada serviram para dissipar seu medo e sua agonia. Onde foram parar seus companheiros? O que é verdade e o que é mentira? Ele precisa escapar para descobrir. Com uma narrativa tensa e surpreendente, Josh Malerman combina em Piano Vermelho o comum e o inusitado numa escalada de acontecimentos que se desdobra nas mais improváveis direções sem jamais deixar de proporcionar aquilo pelo qual o leitor mais espera: o medo.

Josh Malerman é cantor e compositor da banda de rock High Strung. Caixa de Pássaros é o seu romance de estreia e Piano Vermelho é um de seus mais recentes romances.

   Philip Tonka e seus amigos da banda Os Danes, de Detroit, recebem uma inesperada visita de alguém importante no Exército dos Estados Unidos. O que o homem deseja deles é o que mais os deixam desconfiados. E com razão. O secretário Mull propôs que voassem até um deserto na África para "identificar a fonte de um som perigoso", ouvido pela primeira vez em 1948, quando surgiu em um teste de rádio de rotina em Tallahassee, na Flórida. Em pouco tempo, identificar a fonte virou prioridade do Pentágono. Mas em algum momento ficou evidente que, se quisessem saber o que estava produzindo aquele som, era preciso ir até sua origem. Já haviam enviado dois pelotões. Todos soldados. Nenhum músico. É por isso que Mull estava interessado em Os Danes. E com todo o dinheiro envolvido, por que o grupo de músicos recusaria o convite? Bem, talvez tivessem recusado se soubessem que nenhum pelotão voltou da operação realizada no deserto do Namibe, na África.
   Dias após a partida de Os Danes, com a visão periférica fora de foco, Philip acorda no que parece uma hospital militar. Ele se lembra de cada detalhe do deserto e o som de uma música composta por ele está sumindo, como se, enquanto ele dormia, tivesse tocado sem parar, a trilha sonora de seu sono inacreditável. O músico descobre que está gravemente ferido, uma lesão sem precedentes. Para o médico, sua sobrevivência parece injusta, algo incrivelmente difícil de acontecer. Se Philip tivesse quebrado apenas os pulsos e os cotovelos, poderia-se supor que caiu no chão de certa forma. Mas também quebrou os úmeros, os rádios e as ulnas. Suas tuberosidades radiais, os processos coracoides, as trócleas e todos os vintes e sete ossos das mãos também estão quebrados. Ele não quebrou apenas os pulsos e cotovelos, ele quebrou e esmagou quase todos os ossos do corpo.
  Philip ainda é capaz de vê marcas de cascos, um rastro de pegadas se estendendo. E também ouve o som, doentio e sensível. Ele nunca mais conseguiu ser o mesmo depois de ter ouvido aquilo que foi capaz de criar sua própria trilha, curvando-se sobre o horizonte de sua memória. O música tentava combatê-lo com a música que compôs. Ele e Os Danes. A canção que lhe fez companhia durante o tempo em que esteve em coma. Enquanto rememora cada segundo que passou no deserto, as primeiras perguntas que o médico faz a Tonka são: como ele poderia sobreviver a isso? O que aconteceu? O que ele encontrou? Mas na verdade, a pergunta mais importante não é o que ele encontrou... mas o que encontrou ele.


"— Muito bom. — Após uma breve hesitação, o homem continua: — Então me conte como encontrou o primeiro cadáver.
— Também falei sobre isso tudo para o Dr. Szands.
— Sim. Mas eu queria ouvir de você. Às vezes, ao ouvir pessoalmente, é possível desenterrar novas informações".

   E aqui estou eu para falar do novo thriller do autor que abalou o mercado literário de 2015 com o sucesso Caixa de Pássaros, que ganha em breve uma adaptação pelo serviço de streaming Netflix. Bem, não é novidade para ninguém que Caixa de Pássaros foi o livro mais impactante que já li até hoje — uma obra prima da literatura, um divisor de águas num mercado saturado e com carência de originalidade. No entanto, a primeira coisa que se precisa saber é que não se deve esperar que Piano Vermelho seja um Caixa de Pássaros, porque, apesar de toda a maestria em sua construção, ele não é afinado como o canto dos pássaros presos na caixa de Malorie.
   Mesmo que não seja, digamos, tão bom quanto Caixa de Pássaros, eu pude perceber que Piano Vermelho é tão peculiar quanto o romance de estreia de Malerman, que quando questionado sobre o porquê de escrever obras sombrias, enigmáticas e com finais que nem sempre caem no gosto do leitor, respondeu que prefere acreditar que existem "coisas" que estão além da compreensão humana. Não podemos negar isso, certo? Acredito até que seja um excelente argumento para explicar suas tramas que seguram sempre um "grande segredo" e tomam cuidado para não haver furos e revelações grandiosas, mesmo lidando com passado e presente ao mesmo tempo.
   Mas a pergunta que não quer calar em 2017 é: por que o Piano Vermelho desafinou? Resposta de número 1: porque os leitores foram com muita sede a um pote que não prometia um oceano de água. Resposta de número 2: porque o final conseguiu ser ainda mais louco que o de Caixa de Pássaros, exigindo do leitor diversas releituras e o desenvolvimento de teorias. Não obstante, cabe a mim fazer mais duas perguntas para vocês, leitores: é justo "acabar" com um livro só porque o final dele não nos agradou? Não deveríamos utilizar nossa inteligência humana para pesquisar, estudar a obra, ler suas entrelinhas e buscar entender o que motivou um autor a manter determinada essência em sua obra? Depois de ler Caixa de Pássaros, é ridículo esperar sanidade da parte de Josh Malerman. 
   Não vou mentir, eu também me senti muito frustrado com o final de Piano Vermelho — que foi desenvolvido com certa obscuridade, talvez para combinar com a obra em si. Não sei! O que realmente posso falar é que nem por isso eu desconsiderei que foi uma leitura sinistra, emocionante, perturbadora e eletrizante. Não como a de Caixa de Pássaros, mas ainda assim com alternância de cenários, capítulos curtos, arrepiantes, instigantes e misteriosos. O problema é que esperamos que os autores que são consagrados com determinadas obras façam todas as demais espelhadas nelas, mas não é assim. Nem todo livro de Machado de Assis é como Dom Casmurro. Nem todo poema de Edgar Allan Poe é como O Corvo. Nem todo Piano Vermelho será como Caixa de Pássaros. Isso torna alguma das quatro obras menos especiais? Claro que não!

"Os chapéus elaborados parecem majestosos para nós, mas, no fim das contas, aquelas pessoas estavam apenas matando umas às outras. Todas as guerras são travadas pelo mesmo motivo. Por causa disso, são todas a mesma guerra".

  A narração, como sempre, é um ponto importantíssimo nos livros de Josh Malerman. Como a Letícia ressaltou na resenha de Caixa de Pássaros, Josh, como poucos, provou que a narração em terceira pessoa deixa a história tão emocionante e tocante quanto a feita em primeira pessoa. O autor sabe exatamente como combinar o comum e o inusitado numa escala de acontecimentos que remetem a uma literatura de horror e que se desdobra nas mais improváveis direções sem jamais deixar de proporcionar aquilo pelo qual o leitor mais espera: o medo e o choque.
   Apesar das diferenças — não tão gritantes assim —, quando colocado em paralelo com o romance de estreia do autor, Piano Vermelho também acaba sendo um livro forte. Alguns detalhes macabros e peculiares chegaram a me deixar com medo e questionador. "O que são esses cascos na areia?" Qual a origem desse misterioso som?" "O que é a criatura com cascos?" "Por que o delírio quando se ouve o som?". Foi quase impossível não pensar sobre algumas cenas durante boa parte das horas que sucederam o término da leitura.
   Apesar de ter sido uma leitura arrastada para alguns leitores, Piano Vermelho me envolveu desde o primeiro capítulo e manteve meu interesse até o último ponto final. O livro nos leva a oscilar o tempo todo entre presente e passado, entre o antes e o agora, com um teor psicológico trabalhado com uma maestria que muito nos faz lembrar de autores consagrados do gênero. Os capítulos são favoráveis a uma leitura fluida, já que são curtos e alternados, e Malerman escreve e divaga muito bem, manipulando o sentimento do leitor com a mesma facilidade que tem para escrever. Acaba sendo um livro que exige muito do leitor — e se você tiver preguiça de pensar, bem, você vai odiar o livro!

"A originalidade impressionante de Malerman é inegável. Sombrio e perturbador, seu segundo romance tem uma força excepcional e com certeza é diferente de tudo o que você leu nos últimos tempos." — Kirkus Reviews

   No que se refere aos personagens, temos uma composição extremamente minimalista e pouco desenvolvida. O personagem chave é o Philip Tonka, músico e pianista da banda Os Danes. No entanto, seguindo um estilo já tendencioso, Malerman apresenta pouco acerca do protagonista e ainda insere um romance inusitado no meio disso tudo. Por isso, eu diria que o personagem principal da história acaba sendo o próprio som e os mistérios que o cercam. Não falarei muito sobre os personagens porque não encontrei uma forma de apresentá-los sem acabar influenciando na leitura. É um thriller psicológico/horror, você tem que ler e tirar suas próprias conclusões acerca da mente de cada um, certo?
   A edição é linda e o design, mesmo que simples, ficou muito belo e agradável. A capa, que mantém o padrão de Caixa de Pássaros, é a mais bonita dentre todas as lançadas ao redor do mundo e faz justiça a atmosfera presente no livro. A diagramação segue os padrões de qualidade que sempre vemos na Intrínseca e não encontrei erros de revisão — meu tempo foi usado apenas para descobrir os mistérios do som no deserto do Namibe.
   Indico esse livro para todos os que gostam de histórias que nos instigam em todos os momentos a compreendê-las, arrancar suas máscaras e formular teorias. Prestar atenção a cada frase, personagem e detalhe conta muito para a compreensão, já que, como dito, o final consegue ser ainda mais peculiar que o de Caixa de Pássaros. Usem protetor auricular e estejam preparados para o que irão ouvir!

Primeiro Parágrafo: "O paciente está acordado. O som de uma música composta por ele está sumido, como se, enquanto ele dormia, tivesse tocado sem parar, a trilha sonora de seu sono inacreditável". 
Melhor Quote: "Talvez seja porque você não sabe onde isso vai dar, pensa Philip, tocando no ombro de Ross. Talvez as pessoas só concordem em começar porque não sabem onde vão terminar".


 


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